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RELATO DE UM CASO

Page history last edited by ilsa.berenice@... 2 years, 10 months ago

Nome: A.

Idade: 9 anos

Situação familiar: É adotado, morava em um abrigo para menores. Foi recolhido da casa da avó materna, pois houve denúncia de maus tratos contra ele e mais dois irmãos. Os pais são usuários de drogas, e abandonaram os filhos, deixando-os aos cuidados da avó, que os maltratava.

A família em que convive, o adotou junto com seus dois irmãos, uma menina de mais idade e um irmão menor. Atualmente frequenta o 2º ano, numa turma com atendimento diferenciado pois não concluiu sua alfabetização.

Profissão dos pais:

Condições sócioeconômicas da família: A família que o adotou é de classe média baixa.

Laudo: Esquizofrenia

Transtorno de personalidade Bordeline

 Alucinação e Psicopatia

Déficit de atenção e hiperatividade.

 

Relato da mãe adotiva:

 

O menino A. foi adotado há quatro anos atrás. Já estava em um abrigo desde os dois anos. A mãe adotiva relata que ele passou por muitas coisas ruins. Sua mãe o abandonou, e ficou aos cuidados da vó, que ele tinha como mãe. Ela foi presa na sua frente, os policiais invadiram sua casa, pois ela era traficante de drogas e mantinha uma casa de prostituição. Prenderam-na com muita violência, e ele presenciou tudo. Além da rejeição da mãe, sofreu todo tipo de violência,maus tratos e negligência. Quando veio morar com a família que o adotou, esta de imediato envolveu-o em confiança, carinho e proteção, mas ele não correspondia, era distante e frio. Só mostrava alguma reação quando queria alguma coisa. Segundo a mãe, o que mais chamava a atenção da família era a crueldade com os bichinhos. Ele matava tudo o que se mexia: formiga, caracol, bicho cabeludo...matava e colocava em fila. O auge da crueldade foi quando ele enforcou o passarinho dos irmãos, passou uma corda no pescoço do bichinho e puxou na frente de todos. Ele já se tratava com uma neuropediatra que diagnosticou Esquizofrenia. Aconselhada pela neuro a mãe procurou uma psiquiatra, que diagnosticou Transtorno de Bordelini (anti- social), Transtorno de Oposto, alucinação e psicopatia. Atualmente toma 3 tipos de medicação: Carbamazepina (anti-convulsivo) Imipramina (antidepressivo) e Rispiridona (anti-psicótico). Melhorou bastante com a medicação, tem déficit de atenção e Hiperatividade. Segundo a mãe ele é inteligente e meticuloso, usa muito bem sua parte sedutora e consegue envolver as pessoas quando isso se interessa e lhe trás alguma vantagem. É mentiroso demais, mente de uma maneira, que quem não o conhece acredita com certeza. É traiçoeiro e trapaceiro, se isto o ajudar no que ele quer. No seu relato a mãe diz que precisa estar sempre atenta a tudo, ele tem que ter sempre muito limite, pois não respeita regras (anti-social) e não se relaciona afetivamente com nenhum dos irmãos e nenhum deles confia em A.

A mãe diz que o ama muito, mas tenta ser firme sempre, se ele faz algo correto, sempre demonstra que está feliz com o acerto dele, e sabe que seus problemas se originaram por tudo o que passou.

 

Meu relato:

 

A. foi meu aluno no ano de 2008. Fez a pré-escola, e veio junto com os coleguinhas para o primeiro ano. Nos primeiros dias de aula, as mães dos coleguinhas me diziam que era prá ficar de olho nele, que ele era "tinhoso". Falei com a professora da pré-escola, que me disse que ele só precisava de carinho e atenção, que passou por muitos problemas desde que nasceu, e que tinha muita dificuldade na aprendizagem.

No início notei que ele tinha dificuldade no recorte, colagem pintura, também não conseguia escrever seu nome, nem olhando o crachá, usava todas as letras, mas desordenadamente. Conclui o ano letivo com ele escrevendo seu nome de trás prá frente. (espelhado).

Nas atividades de seriação, classificação, ele se atrapalhava todo, não conseguia ter uma coordenação.Tinha muita dificuldade nas brincadeiras e exercícios que exigiam coordenação e equilibrio, realizados  no pátio. Frequentemente na aula, dava respostas precipitadas, antes que as perguntas fossem completadas, as vezes não tinha nada a ver com o que era discutido no momento.

Na utilização do caderno, não tinha organização, mesmo com auxilio individual. Conseguia copiar a data. A dificuldade para manter a atenção em tarefas era imensa, e perdia (as vezes propositadamente) todo o seu material escolar. As tarefas que realizava ou não, em sala de aula, ele amassava e colocava no lixo, e as tarefas de casa jogava fora no caminho para casa. Era distraído e esquecido, não parava sentado, passava o tempo todo nas classes dos colegas. Perturbava a aula, pois não seguia as regras de convivência na sala de aula. Na parte afetiva, era indiferente comigo, se aproximava só quando precisava de alguma coisa, na hora de ir embora, ele não me beijava, tentando uma aproximação, eu o chamava e beijava seu rosto e, para ganhar um beijo tinha que pedir. Ele dava bem rápido e friamente. Não demonstrava afeto por ninguém.

Quando começaram as queixas de que os materiais dos alunos estavam sumindo, e de que ele pegava os mesmos sem pedir, inclusive a merenda dos colegas, fiquei preocupada. Comecei a observá-lo melhor e o sentei na minha frente. Também maltratava os colegas, tinha o cuidado para que eu não visse, e quando questionado do porque de tal atitude, negava, as vezes até chorava, dizendo que não tinha feito. Ele negava tudo, de uma forma que até eu acreditava nele. Comecei a observar o comportamento dele nas brincadeiras e nos jogos, tinha investidas para machucar os colegas, com empurrões, chutes, trombadas. Todo dia tinha queixa de A. Lembro que teve um dia em que levava os alunos para a capoeira, e no caminho tinha um cachorrinho dormindo encolhidinho, todos passaram e desviaram do bichinho, A. o chutou com muita força, com muita maldade. Quando fui conversar com ele sobre o que tinha feito, ele negou o tempo todo, dizendo: -Não fui eu. Não sei que fez isso. A gota d"água foi quando fincou uma tesoura num coleguinha. Chamei a mãe para conversar e ela me relatou os problemas de A. Nessa época só se tratava com uma neuropediatra, sem medicação. A mãe tem plano de saúde, e o levava em uma clínica. O episódio do passarinho aconteceu durante o ano letivo.Foi aconselhada a levar A. para avaliação de um psiquiatra e começou a tomar medicação. Foi proibido de uma infinidade de coisas, inclusive a de usar tesoura. Seu material era todo nomeado, as folhas do caderno numeradas, em hipótese alguma deveria pegar material emprestado dos colegas. Tinha que fazer um relatório diário sobre o seu comportamento na aula. Quando foi feito o trabalho para o Seminário Integrador das perguntas das crianças, ele me perguntou "Por que o mal fica do lado da gente, quando a gente não se comporta?"

Pedi que me explicasse melhor o que ele queria saber, e ele disse que tinha um quadro com um anjinho na cabeceira da cama dele, e que ele e a mãe rezavam sempre,pedindo proteção e para que fosse um bom menino, se fizesse coisas boas o anjinho estaria do lado dele, se fizesse coisas ruins, ele sairia do lado dele, e o mal ficaria perto. A mãe me explicou que foi uma maneira de incentivá-lo a agir dentro das regras.

No início da medicação, A. ficou bastante apático, sonolento, era estranho, ficava muito quieto, sozinho, mas com o tempo, seu comportamento melhorou, começou a brincar com os colegas, realizar as tarefas com mais atenção e interesse. Conseguiu até o final do ano letivo, reconhecer todas as letras do alfabeto, leitura e escrita, letra inicial e final das palavras, bem como dos numerais até 10. Realizava adição e subtração simples.  Conseguiu mais organização com o material, melhorou no recorte e sua pintura era um primor.Frequentou o Laboratório de Aprendizagem durante uns 4 meses, onde uma professora fazia um atendimento diferenciado com no máximo 5 alunos por vez, durante uma hora, uma vez por semana. O LA foi extinto, pois a professora foi designada para a Supervisão da Merenda Escolar. AS agressões contra os colegas acabaram, bem como os sumiços de materiais. Participava das brincadeiras com entusiasmo e parecia uma criança feliz.

Como estava no 1º ano, que não reprova, foi para o 2º ano, mas numa turma diferenciada, com alunos que não conseguiram concluir a alfabetização. Pelo relato da professora, ele está bem melhor na parte cognitiva, mas de vez em quando seu comportamento é péssimo. Ela tem que ficar de olho nele, por causa das brincadeiras agressivas com os outros colegas.

Acredito que todos estes problemas foram gerados, pela situação familiar desta criança. Sua mãe se drogava na gestação,e isso pode causar problemas significativos na criança, até mesmo atraso mental. Depois a rejeição e o abandono, sem contar com os maus tratos que sofria. A mãe adotiva relata que sabe que seus problemas tem origem na desestruturação de sua família.

O texto Deficiência Mental e Família: Implicações para o desenvolvimento da Criança, da Unidade 5, fala da importância e influência do ambiente para o desenvolvimento da criança. Vigotsky(1994) afirma que a influência do ambiente sobre o desenvolvimento infantil, ao lado de outros tipos de influências, também deve ser avaliada levando em consideração o grau de entendimento, a consciência e o insigt do que está acontecendo no ambiente em questão(pág. 343).

 

Conheço os pais adotivos, ano passado dei aula para uma de suas irmãs, que é adotada também mas de outra família. Uma menina tranquila e carinhosa e com ótima aprendizagem. Não conheço seus irmãos biológicos.

Atualmente A. continua com tratamento psiquiátrico e psicológico, numa clínica particular, seus pais estão sempre na escola, para acompanhar seu andamento. São muito participativos no sentido de colaborar com a professora nos problemas surgidos em sala de aula. Não frequenta nenhuma escola especial em turno inverso, e falando com sua atual professora, continua com baixo rendimento, mesmo tendo  um atendimento diferenciado, pois a turma que frequenta é uma turma que iniciou a alfabetização novamente, são alunos que não conseguiram bons resultados no 1º ano.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comments (4)

Simone Ramminger said

at 3:30 pm on May 22, 2009

Ilsa lembra que a atividade da unidade 4 deve ser postada até o dia 22/05. "Sua tarefa nesta unidade será iniciar o registro escrito de seu "Estudo de Caso", você deve definir quem será o sujeito de sua pesquisa e registrar as informações solicitadas." Caso precises ajuda, faça contato. Um abraço, Simone - Tutora sede EPNE

Simone Ramminger said

at 2:52 pm on May 26, 2009

Ilsa vejo que registraste alguns dados sobre o sujeito do teu estudo de caso, inclusive as informações solicitadas na atividade. Portanto, fizeste a postagem da atividade da unidade 4. Vou sugerir algumas questões que podes ir acrescentando no teu relato: Sabes que idade o menino tem? Desde quando ele tem esse diagnóstico? Quem fez o diagnóstico e onde? Ele tem algum atendimento complementar especializado, fora da escola? Como é o relacionamento dele com os colegas? Lembra de não identificar o menino pelo nome, podes colocar apenas as iniciais ou criar um nome fictício. Chama a atenção que esse menino tem uma história familiar bem complicada. Tu acredita que isso pode ter influenciado no desenvolvimento das dificuldades que ele apresenta? Os materiais da unidade 5 devem te ajudar no estudo de caso. Um abraço, Simone - Tutora sede EPNE

Simone Ramminger said

at 5:39 pm on Jun 12, 2009

Ilsa receber alunos assim tão comprometidos na sala de aula é realmente um desafio. Em geral são alunos que demandam uma série de modificações no contexto escolar, envolvendo currículo, conteúdos, intervenção pedagógica, avaliação, apoios...
Como é triste a historia de vida desse menino. É bem provável que a situação familiar tenha contribuído para seus atuais comportamentos. Conheces os irmãos dele? Sabes se hoje em dia ele tem algum atendimento especializado? Existe algum envolvimento da família no processo de inclusão escolar?
A atividade da unidade 6 já está disponível no Rooda, em aulas.
Qualquer dúvida, faça contato.
Um abraço, Simone - tutora sede EPNE

Simone Ramminger said

at 8:36 pm on Jul 3, 2009

Olá Ilsa!! Vejo que acrescentaste mais informações sobre o A. aqui no teu estudo de caso. Comentaste as questões solicitadas na atividade da unidade 6, como o relacionamento do A. com os colegas, irmãos e professores, falaste sobre seu processo de aprendizagem, sobre a participação da família no processo de inclusão escolar.
Provavelmente muitos dos seus problemas tem origem na história familiar, como bem colocas. No texto "Deficiência Mental e Família: Implicações para o Desenvolvimento da Criança", Silva e Dessen referem ainda que: " A gama de interações e relações desenvolvidas entre os membros familiares mostra que o desenvolvimento do indivíduo não pode ser isolado do desenvolvimento da família (Dessen & Lewis, 1998)".
Que aproximações existem entre as idéias trazidas nos textos da unidade 7 sobre avaliação e teu estudo de caso? Aguardamos a postagem da atividade 7.
Qualquer dúvida, faça contato.
Um abraço, Simone

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